quarta-feira, dezembro 13, 2006

Ainda Camarate

José Esteves confessou à revista Focus ter sido ele quem fabricou o engenho explosivo que terá originado a queda de avião onde seguiam Sá Carneiro, Snu Abecassis e Adelino Amaro da Costa.

Questionado pela revista Focus sobre o alvo do atentado, José Esteves explica que "era um engodo destinado a Soares Carneiro" e que "o circo mediático estava todo montado".

Segundo conta José Esteves, a bomba era para "fazer incendiar o avião no fim da pista, sem levantar, e pregar um susto".
(in Público 28-11-2006)

Parece que assim, a tese da "brincadeira parva", a acreditar no que diz JE, não é tão parva como isso.
Que mais disse JE?

O antigo segurança afirmou também à Focus que foi ele quem "fabricou a faca, mas não deu a facada". "Eu fabrico a faca, mas não dou a facada. As armas não matam. Quem mata são os homens. Em Camarate, tudo o que eu fiz foi dizer 'sim, senhor patrão'", pode ler-se na mesma entrevista.

"Montei um engenho incendiário para pregar um susto. Foi entregue na Rua Augusta, numa loja, debaixo de um 'puff'. Já sabia que era para um indivíduo de tez escura...", disse José Esteves à revista. (obra cit.)

E afinal quem é JE?

«José Esteves, operacional dos Comandos de Defesa do Continente (CODECO) e guarda-costas de Freitas do Amaral na campanha das presidenciais em 1986, foi arguido no processo da morte de Sá Carneiro, em Camarate, na noite de 4 de Dezembro de 1980.Chegou a ser ouvido numa comissão de inquérito na Assembleia da República, numa altura em que era ainda detective privado.José António dos Santos Esteves, depois vidente, usava o nome de ‘SôZé’, participando nas ‘Noites Marcianas’ e noutro programa, na SIC, com Herman José. Foi ainda segurança, na Universidade Moderna. Recentemente converteu-se ao islamismo.» (Correio da Manhã, 29-11-2006, via Queixeirices)

Não será por acaso que estas revelações, verdadeiramente explosivas, só acontecem depois do processo ter prescrito em Setembro deste ano.
Sei que é difícil compreender a prescrição dum processo como este - Marques Mendes que o diga -, porém, se não fosse assim, imaginem o que seria da Justiça se, por causa dos JE deste mundo, andasse ainda ocupada a investigar, por exemplo, regicídios ocorridos na nossa história. Era impensável.
Enfim, já que a justiça nada mais pode fazer, ao menos, impunha-se à comunicação social que investigasse como deve ser este novo elemento, que averiguasse da credibilidade deste testemunho e que a partir daí procurasse saber mais. Não se limitasse às perangonas habituais que apenas servem para sustentar algumas vendas .
É o que se impõe a bem da história de Portugal, que esta não prescreverá.

7 comentários:

AM disse...

Plenamente de acordo.
Infelizmente a esmagadora maioria dos profissionais da comunicação social (ou dos seus patrões?) está mais à vontade a atirar lama e a lançar suspeiçoes do que a cumprir a sua missão que é também (ou sobretudo) a de investigar e divulgar a verdade.

AM

rui guerra disse...

não senhor!!!!
a culpa não pode morrer solteira.
é necessário alterar este estado de espírito bem português.
a história não pode ser escrita desta forma: processos incompletos, culpados não descobertos.
assim, deste modo portugal passará para a história como o país sem justiça.
o legado para gerações futuras será "O crime, seja de que natureza for, compensa!"

ricardo batista disse...

Guerra:
Podes criticar o facto de a justiça não ter dado uma resposta clara ao sucedido em tempo útil, mas não acredito que sejas a favor da não prescrição destes processos, ou de, à Marques Mendes, quereres alargar o prazo de prescrição actual, que considero bastante razoável, de forma a julgar Camarate, nem que seja por decreto.

Agora os esclarecimentos possíveis cabem aos historiadores e a cs bem que podia ter um papel determinante na investigação de factos, pelas fontes que possui.

rui guerra disse...

sou a favor de algo muito simples:
A prescrição é CRIME.
Quem a pratica deve ser constituido arguido!
Estás a imaginar o terror que seria para os doutores?
Os processos seriam mais céleres, certamente!
O Marques Mendes propõe apenas para agradar ao seu eleitorado - aliás, como todos os políticos em geral!

ricardo batista disse...

Põe-te na pele do juíz que está com o processo, depois deste ter passado pela mão de vários colegas, de tribunais inferiores para superiores e vice-versa, ter de decidir matérias tão complexas e fundamentais, sob a pressão dum processo crime, apenas pelo decurso dum prazo processual e independentemente da sua culpa.
Parece-te justo?

rui guerra disse...

Felizmente no "mundo real" todos temos prazos:
a) eu tenho que cumprir prazos de entrega aos clientes;
b) tu terás os teus prazos dos processos dos teus clientes
c) o padeiro tem o seu prazo para os seus clientes

Se falharmos, algo pode correr mal. Os clientes certamente vão-nos penalizar. No meu caso, não preciso que seja o cliente, antes dele a minha entidade patronal, perguntar-me-à o que correu mal e terei que justicar o atraso.
A diferença entre as nossas profissões (incluindo o padeiro) e os juízes é que os processos podem prescrever facilmente, que a culpa é do sistema judicial.
Eu não concordo com este sistema. Não penses que defendo a mediatização da Comunicação Social e o julgamento que esta faz dos suspeitos, não mudei assim tanto.

ricardo batista disse...

Essa responsabilidade de que falas é meramente contratual, são planos diferentes, o juiz desenvolve uma função pública fundamental num estado de direito, é um orgão de soberania, de Estado.
Não é a mesma coisa, a pressão do cliente, do fornecedor, do patrão, ou do cliente, da pressão de mandar alguém para a cadeia, por exemplo.