quarta-feira, novembro 01, 2006

Chico Buarque voltou a cantar!

Um concerto memorável!
O Coliseu lotado curvou-se perante um Chico Buarque intemporal e de fino toque.
Encoberto pela imagem da "partitura quadrada" de Heitor Villa Lobos(?) surgiu a silhueta de CB, cantando um samba de 1939, de Lamertine Babo, Voltei a cantar, numa clara alusão ao seu regresso às canções, depois da literatura.
Por mim, seja muitíssimo bem-vindo sr. Chico.
Esta introdução contou ainda com o violão de Luiz Cláudio Ramos, parceiro inseparável de Chico, produtor musical, maestro e arranjador.
Logo de seguida, a banda entra com tudo, em Mambebe (1972). Um conjunto de superiores instrumentistas, com piano, teclados, sopros, violas, bateria, baixo, contra-baixo e múltiplas percussões, faziam um som compacto, preciso - bem executado. Dura na queda (2000), do disco Carioca, que coemça "o sol ensolarará a estrada dela" e termina com uma salsa genial, completaram este medley de 3. A plateia não se fez encantar, por enquanto.
"Mané para Didi, Didi para Mané, Mané para Pagão, Pagão para Pelé e Canhoteu", de O futebol (1989), serviu de pretexto para piscar olho aos anfitriões, foi dedicada a Eusébio, óbvio, mas também ... "ao menino Anderson".
Morena de Angola (1980) soltou o primeiro entusiasmo dos espectadores. A senhora ao meu lado acordou e desatou a bater palmas e a trautear sorridente. Foi bonito o arranjo daquela parte final do coro "iá-iá-iá" (estão a ver?). Misterioso.

Depois dessa, sentou-se para, calmamente, demonstrar aquilo que melhor sabe fazer: compor músicas e letras, cantar e tocar violão. E daí só saiu depois de tocar aí umas 20 músicas (do total de 30).
Este desenvolvimento foi num registo mais recatado, mais íntimo, mais sentido.
Do seu último disco, Carioca, tocou todinhas. É um vintage que alguns fãs ainda não aprenderam a gostar. A boa música é para ser bebida de gole em gole.
Imagina, de Tom Jobim e Chico Buarque, foi cantada em dueto, numa execução sublime. Mil Perdões, Eu te Amo, As virtrines, A História de Lily Braun, Morro dois Irmãos e mais outras tantas, vieram também do baú de Chico.

Havia muitos que queriam ouvir as antigas, que toda a gente sabe e canta. Só que entre centenas de canções a selecção incidiu sobretudo na sua qualidade e não tanto no seu sucesso. Boa opção, diria.

No final, Chico levantou-se e o concerto entrou numa dinâmica mais viva e em crescendo. Duas das minhas canções favoritas: Bye bye Brasil e Cantando no Toró, lançaram o mote desta toada. Depois foi o show de Wilson das Neves, o baterista, de 70 anos, que ainda toca com uma leveza impressionante. Os velhos amigos cantaram Grande Hotel, um samba deles dois, e o Wilson, cheio de samba no pé, animou a geral. Ainda tentou provocar o seu parceiro para a folia, mas ele fez-se rogado. Deram uns toques, apenas.
Nos encores finais Chico foi finalmente ao encontro da maioria (não o meu caso) que clamava pelos grandes hits. A escolha das cancões foi, como semopre, criteriosa.
Primeiro Foi bonita a festa pá, uma canção com mais de 30 anos e que Chico dedicou aos portugueses, depois da revolução de Abril de 74. Bateream-se palmas ritmadas e na ficou "um cheirinho de alecrim".
Quem te viu e quem te vê é seguramente um dos melhores sambas de toda a história da mpb, Chico escolheu-o e não houve como não bater palmas com vontade, como se diz na letra da canção.
Para a saideira deu-nos mais um doce, a valsa João e Maria. Soube bem cantar com ele Agora eu era herói e o meu cavalo só falava inglês enquanto balançavamos ao ritmo do compasso ternário. Terminou.

«Tudo era muito bem-acabado, música e letra se encaixavam, isto é, o som da palavra em integração absoluta com a música, uma carecterística marcante na obra de Chico Buarque.»
(cit. Almir Chediak, SongbooK)
Na sua música cabe tudo: bossa nova, samba, embolada, salsa, bolero, blues, jazz-swing, pop, rap, e tudo soa sempre ao estilo buarquiano.
No seu último disco, a música Outros Sonhos diz a certa altura: "Sonhei que a beleza não fenecia". Pergunto; será Chico Buarque a imagem real desse seu sonho?
Volta sempre amigo!

nota1: fotos retiradas daqui, daqui e daqui
nota2: corrigido 4.11.2006


2 comentários:

josé disse...

Muito boa, a crítica. Merecia um destaque que não li noutros lados.

ricardo batista disse...

Obrigado José. Entretanto corrigi alguns pormenores. Atenção que as fotos não são do Coliseu, embora sejam do mesmo show.